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Cão Orelha em SC teve inchaço grave na cabeça, olho saltado e sangramento na boca e no nariz após agressão, aponta laudo

 

Foi só uma brincadeira, disseram eles, depois de torturar até quase a morte um cão idoso, comunitário, dócil, um vira-latas, sem raça definida, de nome Orelha. Os quatro adolescentes apontados como responsáveis pelas barbáries as quais o animal foi submetido, jovens de classe média alta, não imaginavam a proporção que seus atos tomariam.

Registro que, como qualquer acusado, eles têm direito ao contraditório e à ampla defesa, recurso que, porém, foi negado ao cachorro indefeso. Em se comprovando a autoria, resta a certeza de que há muitas coisas erradas em tudo isso. Chamar de brincadeira atos de tortura contra um animal que precisou ser eutanasiado pela gravidade dos ferimentos, é banalizar o mal.

Que os animais são vítimas de maus tratos o tempo todo, das mais abomináveis formas, isso é fato. A quase totalidade desses atos ficam anônimos, sem que qualquer justiça lhes seja destinada. Então qual a razão para a morte do cão Orelha ter se tornado o grande assunto da semana, em proporções de ordem nacional e internacional?

Acredito que estamos vivenciando uma quebra de paradigmas. Em um mundo em que mulheres, crianças, idosos e outros tantos vulneráreis são alvos do ódio, da estupidez, da ignorância, da intolerância e de tantos outros sentimentos vis, nem deveria surpreender que os animais passem por situações semelhantes. Então, o que justifica toda a comoção sobre o caso do Orelha?

Por qual razão um cão idoso, de aparência comum, que sequer tinha um tutor, transformou-se, em poucos dias, em um símbolo da luta pelos direitos animais, em uma bandeira da indignação contra a crueldade? Como, por alguns dias ao menos, pessoas de religiões diferentes, de posições políticas distintas, idades, grau de escolaridade e de posição financeira diversas, bradam, em uníssono, o pedido para que a Justiça seja feita?

Venho estudando sobre a proteção animal há mais de duas décadas e é inegável que, de lá para cá, o assunto ganhou certa projeção e respeito, mesmo que ainda falte muito para que o mínimo seja garantido para todos os animais. Creio, assim, que parte da população esteja mais sensível à causa, seja pelo entendimento de que os animais são seres sencientes, seja porque já entenderam que aquele que é capaz de maltratar um ser indefeso, não tem empatia, não possui freios morais e, potencialmente, pode se tornar um agressor de seres humanos também.

Como dizia meu saudoso avô paterno, todos que aqui vivem têm um destino, uma sina, gente ou bicho. Orelha, em seus dez anos, vivendo livre pela praia, presenciando o nascer e o pôr do sol, por certo não tinha motivos para temer um grupo de adolescentes. Protagoniza hoje uma discussão moral, ética e jurídica. A morte o tornou célebre, mártir de uma causa, mas também transformou seus algozes em alvo do ódio e do desprezo alheios.

Mais do que repensarmos as medidas punitivas, penso que é mais urgente entendermos o que leva adolescentes cercados pelas oportunidades, a praticar atos de tamanha torpeza. Em que momento a humanidade neles se perdeu da compaixão? São esses os futuros adultos que queremos para nossa sociedade? Infelizmente o caso do Orelha não é isolado e muito menos será o último. Tentamos entender a natureza dos animais, negando-lhes alguns direitos, mas, enquanto isso, sequer deciframos a natureza humana.

Cinthya Nunes é jornalista, advogada, professora universitária e repudia toda forma de violência – /www.escritrurices.com.br

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