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filtro

Eu conhecia o de água e o de café. Só. Na minha infância, cada vez mais longe no tempo, tínhamos aqueles filtros de barro, que mantinham a água fresca, mesmo sem eletricidade, mas que tinham o estranho hábito de cair e de se espatifar, sobretudo quando se tentava, apoiando na torneirinha de plástico, encher o copo com o restinho da água que havia. Pergunte para os seus pais ou avós, caro jovem leitor.

Filtro de café também é coisa menos frequente, em tempos de cafeteiras elétricas, mas ainda consegue ser encontrado, feito de papel, em muitos lares brasileiros. Já o de tecido é mais raro, mas de gosto incomparável, segundo, ao menos, minhas recordações do passado, nas quais encontro minha avó paterna, a Dona Nena, coando, na cozinha humilde, um café fresquinho, cujo aroma era sentido desde o portão.

Pensando bem, também tem o filtro do cigarro, aquilo que sobra e é descartado em qualquer lugar, por uma boa (nada boa na verdade) parte dos fumantes. Sabia, prezado leitor, que uma única bituca de cigarro é capaz de contaminar mais de cinquenta litros de água? Infelizmente, (im)pura verdade. Que me desculpem, ou não o façam, os fumantes, mas se tem algo que eu não suporto é cigarro, em todas as suas apresentações. Mas, enfim, fume se quiser, mas descarte as bitucas adequadamente, em respeito ao próximo e ao meio ambiente.

Tem outro tipo de filtro, porém, que, paradoxalmente, cresce e diminui conforme vamos ficando mais experientes. Ou velhos, com preferirem. Refiro-me ao ato de filtrar ideias, sentimentos e falas. Tenho me equilibrado entre absorver o menos que posso sobre os problemas alheios, aqueles que não tenho como resolver ou amenizar de nenhum modo e falar aquilo que me dá vontade.

Entendo, mais do que nunca, a importância de ouvir e de não escutar, de falar e não dizer. Nem é confuso como pode parecer. Tento ser o mais atenciosa possível, mas nem tudo tomo para mim, pois nem tudo me diz respeito. Filtro aquilo que realmente merece meu tempo, meu amor e até o desamor. Por outro lado, não calo mais como antes, porque o que cala também pode ferir. Claro que é preciso ter cuidado, jurídico, inclusive. Nem quero ser a pessoa que fala o que vem à mente, tanto para ser considerada sã, quanto para não ser insuportável. Resta saber o quanto o meu filtro dará conta de aguentar.

Hoje, entretanto, quando se fala em filtros, eu logo imagino aqueles efeitos tecnológicos que se sobrepõem aos rostos das pessoas, principalmente nas redes sociais, para torná-las mais jovens e mais bonitas. Às vezes, admito, também os uso. Quando quero gravar algo e estou sem nenhuma maquiagem ou se o lugar tem uma luminosidade ruim. Mas nunca abusei a ponto de me tornar irreconhecível, como o caso daquela mulher que sumiu e que demorou para ser encontrada pela polícia porque a foto fornecida pela família tinha tantos filtros que a tornaram outra pessoa.

Em tempos de censuras não ditas, é preciso filtrar o que se fala, por mil motivos que até a razão desconhece ou discorda. Enquanto for possível pensar sem filtro, porém, sigo aqui, vivendo perigosamente, mas a salvo.

  

Cinthya Nunes é jornalista, advogada, professora universitária e vem perdendo alguns filtros enquanto adota outros – /www.escriturices.com.br

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