
Quase pisei, porque não era algo que deveria estar naquele lugar. Voltava da caminhada diária com as cachorras, quando reparei que entre o velho ipê da minha calçada e um vaso de roseiras, havia algo estranho e malcheiroso. De pronto me subiu uma ânsia pela garganta e tive que entrar em casa o mais rápido que pude, respirando pela boca.
Eu realmente não me importo de limpar e de retirar cocô de animais, em hipótese nenhuma. Faço com naturalidade e sem cerimônia. Mas isso não se aplica, em absoluto, para seres humanos. Para os bebezinhos em abro uma honrosa exceção e, em geral, também lido bem com as diversas situações. Mas é só. E naquela semana, eu já passara por dois eventos do tipo, para meu completo horror.
Há alguns anos, durante a pandemia, juntei-me a um grupo de compostagem coletiva, cujas composteiras ficam em uma praça próxima de minha casa. Em um balde plástico com tampa, vou acumulando, durante a semana, os restos de alimentos, cascas de frutas, ovos, entre outros e, aos domingos, levo tudo até a praça. Normalmente fico para ajudar no processo, mas eventualmente deixo o balde lá, retornando mais tarde para pegá-lo de volta, já vazio.
Como já havia feito outras tantas vezes, procurei pelo meu balde, que não estava visível à primeira vista. Encontrei-o atrás de uma árvore, mas sem a tampa, que fui achar alguns minutos depois, coberta com uma bermuda imunda. Havia servido de banheiro por alguns dos moradores de rua que, a cada dia mais, circulam pelo bairro. Não havia a menor chance de recuperar a tampa e, assim que saí da praça, com o meu estômago revirado, descartei também o balde.
Entendo e me compadeço das pessoas que somente têm as ruas e calçadas como “moradia”. Já dediquei vários outros textos ao tema e, embora se trate de um problema complexo, social, antropológico, requerendo políticas públicas sérias para buscar minimizar a situação, não se pode esquecer de que muitos casos decorrem do uso de entorpecentes, do consumo de álcool e/ou doenças mentais.
Quem “vive” pelas ruas, sem ter acesso a banheiros, logicamente precisa encontrar um meio de fazer suas necessidades fisiológicas e nem imagino o quanto isso deva ser degradante, humilhante. A falta de banheiros públicos é reflexo de como a sociedade lida com a humanidade de quem já perdeu quase tudo. O que não quer dizer, porém, que acho normal ou bacana alguém usar deliberadamente a tampa do meu balde ou a frente da minha casa de banheiro. É paradoxal, eu sei. Humanitariamente eu compreendo, mas não aprovo.
Acredito que não seja uma percepção minha, isolada, mas a cada dia aumenta a quantidade de pessoas vagando pelas ruas, maltrapilhas, atormentadas pelos seus demônios particulares, entorpecidas pelas drogas e pela bebida. Eu tenho pena, mas também tenho medo e não é de pisar em cocô ou de ter que lavar com muita água sanitária a minha calçada. A raiva, a insanidade, a revolta e a violência costumam ser o que sobra quando se perde toda a esperança de algum amparo.
Já não sei se um dia seremos capazes de resolver essa miséria humana, de ordem mundial, que ultrapassa a ausência de um abrigo, mas que se traduz na ausência da civilidade, do humano. Haverá um dia, a caminharmos deste modo, em que as praças, as pontes, as periferias e os tapetes, não serão mais suficientes para camuflar o que se ignora, o que não se deseja pisar e nem por as mãos.
