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vaidade

O que somos quando jovens somente se agrava na velhice. Se a pessoa era chata, prepotente, é muito provável que, ao se tornar idoso, isso se agrave. Do contrário, uma pessoa boa, justa, amável, terá o tempo em seu favor, apurando tais qualidades. Tal como vinagre e vinho, cada um acumulando seus valores ou a ausência deles. Ao menos foi o que me ensinou, ainda na faculdade, um professor precocemente falecido, por problemas cardíacos, aos 66 anos, no já distante ano de 1995.

Tive o privilégio e a alegria de conhecer o Dr. Heber Soares Vargas, médico, escritor e professor durante a graduação em Direito, em Londrina. Durante dois semestres aprendemos sobre Medicina Legal, mas também sobre tantas outras coisas que os livros não apresentam. Lembro-me de uma vez em que eu quis presenteá-lo e, sem saber o que escolher, comprei um bom vinho, para descobrir, após entregar, que ele não bebia absolutamente nada. De quebra, ainda ganhei uma lição delicada sobre os efeitos do álcool.

A morte dele, após complicações de uma cirurgia de coração, interrompeu um projeto incrível e deixou, além dos familiares, centenas de alunos órfãos. Naquela altura, senti que perdia um amigo, um mentor, um verdadeiro mestre. Era um homem de muitos predicados, de títulos, de láureas, embora tivesse com os alunos, ao menos, uma postura de humildade, sempre aberto a ouvir e a ensinar. Descobri hoje, ao escrever este texto, que uma rua na cidade de Londrina recebeu o seu nome, a propósito. De todas as lições sobre tipos de ferimentos, trajetória de balas, vestígios, da qual nunca me esqueci foi a frase inicial desta crônica.

Acumulo pouco mais de cinco décadas de vida, encontrando-me naquele limbo que antecede a velhice, a maturidade e, por isso mesmo, faço o exercício de vigiar em quem sigo me tornando. Tenho minhas rabugices, minhas implicâncias e muitas vezes sou mais chata e mais ríspida do que gostaria, mas espero que não sejam essas as características que irão definir a minha versão idosa. Nesta semana que se passou pude presenciar dois exemplos muito antagônicos e nunca tive tanta certeza de qual lado, a qual “time” eu prefiro pertencer.

Durante o mutirão dominical do qual participo, de compostagem coletiva e limpeza de uma praça próxima à minha casa, notei um casal oriental, aparentando idade bem avançada, que também estava por ali. O homem usava uma bengala ortopédica, daquelas de quatro pés e seguia de braços dados com uma ajudante, ao lado da esposa. Minha surpresa foi notar que, em certo momento, na outra mão, ele usava, assim como outras pessoas na praça, um pegador de lixo e seguia ajudando a recolher a imensa quantidade de resíduos plásticos que, todas as semanas, são jogados naquele espaço verde. Idade não importou, nem mesmo as visíveis limitações físicas, prova de a essência transcende o que nos reveste.

Na mesma semana, porém, presenciei uma cena lamentável. Um homem, certamente com mais de setenta anos, fazia uma defesa perante seus pares e omitirei os detalhes aqui por questões éticas. A fala dele foi o tempo todo de autoengrandecimento, de menção aos seus títulos, à sua “importância”, em detrimento de todos os demais. De acordo com ele, ninguém o ombreava, muito menos o superava, quase indignos de respirar o mesmo ar. Preferimos manter o silêncio, pois o tempo é o senhor das coisas. No fim das contas, é triste, pois a morte um dia nos igualará inevitavelmente.

Nunca me lembrei tanto do meu querido e saudoso professor. Cada um, no fim das contas, dá o que tem dentro de si, oferece ao mundo o seu bem e o seu mal. Perto de mim, não tenho dúvidas do tipo de gente que quero por perto, pois prefiro ser capaz de recolher o lixo da praça e da minha própria alma.

Cinthya Nunes é jornalista, advogada, professora universitária e deseja ser uma idosa o menos chata possível – /www.escriturices.com.br

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