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Meu texto de hoje teria outro nome. Isso se eu tivesse a certeza de que seria considerado liberdade de expressão, se eu ainda confiasse caolha ou cegamente nas instituições brasileiras, na democracia. Jamais, nessas minhas mais de cinco décadas de vida, poderia supor que seria inundada desse sentimento de inveja das pocilgas, mais limpas do que os intentos de tantos poderosos. Assim, “Supremas Torpezas” deverá ser o título de algum outro texto, talvez sobre vilões de animações cinematográficas, sobre os quais ainda é possível crer na justa paga ou na redenção.

Recolho-me, desta forma, ao que posso dar conta. Cansada das tantas horas em frente das telas, com meu corpo ainda preguiçoso de retornar às práticas esportivas mais pesadas, pensei em diversificar, em tentar algo que me proporcionasse momentos de relaxamento e, ao mesmo tempo, que me trouxesse benefícios à saúde. E foi assim que marquei uma aula de experimental de yoga.

Durante a pandemia, na impossibilidade de retornar presencialmente às muitas atividades físicas que eu praticava, encontrei um aplicativo de Yoga que, além de ter preço justo, ainda era composto de vídeos bem explicativos. Fiz várias aulas, escolhendo as mais simples, seja porque temia fazer errado, seja pelo receio de me torcer irremediável e perigosamente.

Encontrei um local a poucos quarteirões de casa, com horários e mensalidade bem acessíveis e fui lá conferir. A professora, uma mulher com uma flexibilidade incrível, sobretudo considerando os seus mais de setenta anos, foi muito gentil diante da minha inabilidade para certos movimentos, fosse pela minha habitual confusão entre esquerda e direita (eterna dicotomia brasileira), fosse pela ausência de elasticidade corpórea. E pensar em contorcionismos tão maiores e mais inexplicáveis ocorrendo às vistas de todos, mas, enfim, voltemos à segurança da yoga.

A turma era quase toda feminina e de idades variadas. À minha frente, uma mulher sorridente, que estimei estar próxima dos oitenta, fazia quase todos os exercícios sem grande dificuldade, o que me animava e, ao mesmo tempo, me colocava em posição delicada. Já de cara gostei e concluí que faria a matrícula para seguir ali, encontrando outra forma de estar em contato comigo, com minha respiração, com meus movimentos, testando meus limites, mas de uma forma bem diversa daquelas pelas quais minhas esperanças têm sido postas à prova.

Há maleabilidades que são desejadas, que nos impelem a uma vida melhor, mais plena. Não envolvem concessões indignas, muito menos o alheio. Ali, naquele espaço de autodescoberta, começo mais uma jornada pessoal, buscando caminhos que posso trilhar com meus próprios pés e descoordenação, no qual não temo represália maior do que as correções da professora, atenta aos desacertos que somente podem me prejudicar e a mais ninguém. Ali eu me contorcerei o quanto for possível, por uma boa causa.

A maior dificuldade, porém, para uma mente movimentada como a minha, é manter o foco, a concentração. O tempo todo preciso ficar me chamando de volta à terra, disciplinando meus pensamentos, sempre fugindo para mais longe, pensando em outras formas de contorcionismo e em como, de repente, passei a me sentir dentro de um imenso e infinito circo de horrores chamado Brasil.

Cinthya Nunes é jornalista, advogada, professora universitária e anda se contorcendo de raiva – /www.escriturices.com.br

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