
Com a comida no bico, o sabiá-laranjeira rodeava, sem entender, o corpo do filhote, esmagado pelas rodas de algum veículo. Sua obra de arte, seu projeto de várias semanas de dedicação e cantorias, aniquilado pelo predador involuntário, em questão de segundos.
Embora São Paulo seja uma cidade imensa e muito tomada pelo cinza das construções, ainda há vários bairros verdes, com muitas árvores, alguns quintais resistentes à sanha das construtoras, praças e parques. Tenho a alegria de viver em um deles. Não que estejamos a salvo, infelizmente, eis que não falta quem queira arrancar, cortar e cimentar tudo, mas desse assunto já tratei outras tantas vezes.
Fato é que na minha rua, uma travessinha de apenas um quarteirão, temos árvores cuja constituição parece ser propícia à construção de ninhos de algumas espécies, como azulões, bem-te-vis e sabiás-laranjeira, o nosso cantor das madrugadas. Acredito ainda que, por ser um pouco mais tranquila, as aves, diante da falta de melhores opções, acreditem que aqui possam criar os seus filhotes.
Todos os anos, no outono e na primavera, o sabiá começa sua cantoria, dividindo-a entre o fim da tarde e a madrugada. Eu adoro ouvi-lo, porque além de me remeter a boas lembranças, acalma meu coração, coloca-me mais perto do Criador. Sei que tem quem não goste, mas, sinceramente, nem me importo. Entre o ronco de motores e o canto de pássaros, minha escolha é óbvia.
Normalmente, depois de algumas semanas no ninho, o filhote, já empenado e com capacidade para pequenos voos, desce para o chão, onde ficará por mais algum tempo, sob os cuidados dos pais, que o continuam alimentando. E é nesse período que ficam à mercê da sorte. Há todo tipo de perigo: pessoas que os querem em gaiolas, gatos e cachorros com acesso à rua, trânsito etc.
Na tentativa de se ocultar, alguns filhotes se colocam sob os pneus dos carros estacionados, ou, para chamar a atenção dos pais, em busca de comida, ficam no meio da rua, abrindo bico e asas. Para tristeza dos moradores da nossa ruazinha, deve ter sido o que aconteceu. Quando eu o encontrei, recolhi o corpinho para lhe dar alguma dignidade e para evitar o desespero dos pais. Ele ou ela ainda estava quente. Deveria ter acabado de acontecer.
Aquilo acabou com o meu dia. Daqui do meu quarto, com janelas voltadas para rua, eu tinha escutado, durante semanas, o canto do pai, que se destina tanto a conquistar a parceira, quanto a ensinar o filhote. Sei onde fica o ninho e todos os dias, quando passo por ele, que está vazio, vejo um dois pais ali por perto, em um dos galhos, em silêncio, um silêncio que ecoa também em mim.
Acredito que pouco sabemos da natureza dos animais, do que sentem, do que são capazes, mas, ainda assim, não duvido que sofram pelas perdas, diante a morte. Nessas horas eu realmente questiono a razão pela qual ele tinha que estar ali, naquele momento, sob aquela roda. Tantas coisas que não entendo, sentimentos que compartilho sem ter ideia de quem lê, mas que sinto que encontram outros corações.
As noites agora estão incomodamente silenciosas. Eu enterrei o pobrezinho, no desejo de enterrar também o desconforto que se abateu sobre mim. Aguardo pela primavera, por outros cantos, por outros recomeços.
